À conversa com Liliana Barata
Dona de muitos ofícios, Liliana Barata, disponibilizou de forma generosa o seu tempo para falar um pouco do seu trabalho.
Hoje em projetos com propósito, falamos com Liliana Barata. Olá, boa tarde Liliana, obrigada por teres aceite este convite. Começo por te perguntar?
# Para quem não conhece a página (@lilianasvbarata) o que nos podes dizer sobre ela, qual é o seu propósito?
Muito obrigada, Sofia, por este convite e por dedicares um pedacinho do teu tempo comigo.
Somos um todo. O mundo precisa de mais pessoas a fazer aquilo que amam, sentindo-se leves, completas e verdadeiramente felizes.
Durante muito tempo, vivi nos bastidores, escondida na sombra do "ainda não sou boa o suficiente". Esse lema era o meu porto seguro, mas também a minha âncora de frustração. Até que um dia, decidi dar um pequenino passo, depois outro... um de cada vez para sair fora da minha zona de conforto — e aqui estou eu, a mostrar ao mundo o que amo fazer, de forma leve e descomplicada. Hoje, ouso (sim, ouso!) inspirar outras pessoas a fazerem o mesmo. E sabes o que mais? Transformei a minha autocrítica numa amiga. Em vez de me aprisionar, ela agora desafia-me a crescer, embora, às vezes, ainda me tente puxar para trás (mas ainda há tanto por experimentar e partilhar!)
# Somos várias coisas tipo canivete suíço não é assim, ouvi dizer-te uma vez numa live tua e estou 100% de acordo. És ilustradora, designer de marcas , escritora e muitas outras coisas, como consegues gerir tudo isto?
Sim, exatamente! Acredito que o "canivete suíço" é a ferramenta essencial na busca pela nossa identidade.
Aceitar a nossa multipotencialidade é fundamental para o autoconhecimento e para expressar a nossa verdadeira essência. É difícil vivermos fragmentados só porque a sociedade acha que, para sermos"suficientemente" bons em algo, temos de nos dedicar a uma só coisa. Quando tomamos consciência dos pilares que nos sustentam e do que alimenta a nossa força e ação, conseguimos construir uma vida baseada no que realmente faz sentido. Isso traz clareza, propósito e dá-nos a liberdade de sermos autênticos. É nesse momento que começamos a fazer escolhas baseadas no que realmente importa para nós.
É claro que abraçar a nossa multipotencialidade pode nos fazer mergulhar num mar de frustração por nem sempre conseguirmos fazer tudo a que nos propomos. Lembro-me de que, quando era pequena, o meu paisó me dava um novo livro para ler quando terminasse o que tinha começado. Com o tempo, percebi que deveria aplicar essa regra ao que fazia. Temos sempre muitas ideias a pipocar, ansiosas para se tornarem reais, mas é preciso "peneirá-las" e colocá-las em prática uma (ou duas) de cada vez, sempre com o objetivo de as finalizar. Só quando têm o carimbo de "missão cumprida" é que podem abrir espaço para outra...percebes o que quero dizer, Sofia?
Existem sim momentos de cansaço, em que sinto que tenho de abrandar. É essencial estarmos atentos e saber que há momentos para agir e para parar. Gosto de comparar a vida com a música: não é só sobre as notas, mas também sobre as pausas entre elas. Tal como uma melodia se torna mais rica e emocionante com os silêncios, a vida também ganha mais cor quando respeitamos os momentos de pausa. Essas pausas permitem-nos respirar, refletir e recarregar, para que possamos voltar a tocar a nossa música pessoal com ainda mais energia e harmonia. A minha vida profissional, familiar e social não se podem separar. É a minha Vida e tem de estar em sintonia, assim como uma... orquestra.
# Tens rituais diários para manter a criatividade em dia?
Sei o que me equilibra e sei o que me desequilibra. Gosto de fazer a mesma coisa de formas diferentes, não seguir receitas “à risca”, de procurar novas perspectivas, passear com a minha família, deixar-me embalarpela minha rede a ler ou “só estar”, meditar, cuidar das minhas plantas, fazer pão! Simples, a simplicidade das coisas aguça-me a criatividade! “Simples. Assim.”
# Costumas promover workshops de ilustração com crianças, fala-me um pouco sobre isso. Como os preparas?
É durante a nossa infância que nascem e se desenvolvem grande parte das nossas crenças e medos. Somos formatados a fazer as coisas da forma “certa”, aprendemos a comparar-nos com os outros, a pintarmos o céu de azul, o sol de amarelo, a não colorir fora da linha...
Com os workshops para crianças tento liberta-las de tudo isso. Da crítica, da auto-critica, ajudo-as a regar a criatividade, a se expressarem sem o medo de estar certo ou errado, “bonito” ou “feio”. É o processo! O processo criativo é poderosíssimo, é libertador! Esta é a base de todos os workshops que promovo, seja de criação e ilustração de livros, seja de arte colaborativa ou até mesmo de quadros com materiais reciclados e naturais.